O ciclo da violência doméstica

O ciclo da violência doméstica

Por Anderson Albuquerque


Dados divulgados pelo Monitor da Violência, no dia 8 de março de 2019, dia Internacional da Mulher, mostram que a violência contra a mulher é ainda a evidência mais clara da desigualdade de gênero no nosso país.

O Brasil continua sendo um dos países mais violentos do mundo no que diz respeito à violência contra a mulher. Segundo um estudo de 2018 do UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), a taxa de feminicídios mundial em 2017 foi de 2,3 mortes a cada 100 mil mulheres.

No Brasil, esta taxa é 74% maior do que a média global – dados relativos a 2018 mostram que a cada 100 mil mulheres, 4 são mortas. Muitas destas mulheres que são mortas já haviam sofrido anteriormente agressões psicológicas e físicas de seu companheiro ou ex-companheiro.

Para compreender o fenômeno da violência doméstica, é importante lembrar que muitas mulheres vivem ou viviam um relacionamento abusivo, e que muitas delas sofrem agressões diariamente.

Estas mulheres passam pelo chamado “ciclo da violência”. Este termo foi criado em 1979 pela psicóloga norte-americana Lenore Walker, e passou a ser utilizado para identificar os padrões abusivos presentes em uma relação.

Este ciclo possui três fases: aumento de tensão, ato de violência e “lua de mel”. Na primeira fase, as críticas, o controle e as ofensas verbais à mulher aumentam - ocorre a chamada violência psicológica.

Nesta fase, o homem passa a se comportar de maneira ameaçadora, mas a mulher muitas vezes acha que fez algo que justifique esse comportamento, e até mesmo se culpa. Esta situação pode durar dias ou anos, e quase sempre leva à segunda fase.

A segunda fase é quando ocorre o ato de violência, ou seja, o homem, que já agredia psicologicamente sua parceira, agora a agride fisicamente. Toda a tensão acumulada na primeira fase é convertida em violência verbal, física, psicológica, moral ou patrimonial.

Nesta fase, a mulher tem consciência de que está em um relacionamento abusivo, e é nesta etapa que muitas denunciam seu agressor. Outras, no entanto, entram em um estado de paralisia, medo, confusão, e passam a ter diversos problemas psicológicos.

A fase seguinte, conhecida como “lua de mel”, é caracterizada pelo suposto arrependimento do agressor, que muda seu comportamento – dá flores, presentes, pede desculpas e jura que o ato de violência jamais irá se repetir, a fim de se reconciliar com sua parceira.

Há, assim, um período de calmaria, em que a mulher acredita na mudança do companheiro, e coloca na balança tudo que está em jogo: seu casamento, seus filhos, e a própria relação de afeto entre eles.

No entanto, esta “mudança de comportamento” do companheiro dura somente até a nova agressão verbal, e a tensão retorna, dando início a um novo ciclo de violência, que tende a se repetir indefinidamente.

A maioria das mulheres que passam por esta situação criam uma relação de dependência com o agressor, justificam seus atos: “é só uma fase”, “ele estava nervoso por causa do trabalho” etc. O agressor, por sua vez, culpa a mulher por seu descontrole, seu ato de violência, o que a leva a acreditar que realmente é culpada pela agressão, e por isso o perdoa.

É preciso urgentemente quebrar este ciclo. É inaceitável que nossa sociedade acredite que a mulher que não denuncia o companheiro “gosta de apanhar”. A mulher não denuncia o parceiro por diversos fatores: pela pressão social de permanecer casada, pela dependência econômica, por vergonha e, em casos mais graves, por medo de que ela ou seus filhos morram (muitos homens ameaçam matar a companheira ou os próprios filhos caso ela o denuncie).

A mulher que percebe que é vítima de violência doméstica não pode ficar calada. Embora seja necessário um esforço enorme para se desvincular emocionalmente desta situação, esta mulher precisa saber que terá o amparo da Lei Maria da Penha – apoio jurídico e psicológico.

Ainda que nosso sistema apresente muitas falhas, é muito pior permanecer casada com o agressor, pois o risco de que o ciclo da violência doméstica termine em feminicídio é sempre maior.

 

Anderson Albuquerque – Direito da Mulher - Ciclo da violência doméstica