Gaslighting: saiba se você é vítima deste crime

Gaslighting: saiba se você é vítima deste crime

Por Anderson Albuquerque


Se você já ouviu frases como "Você está louca", "Isso é coisa da sua cabeça", "Você é paranoica", dentre outras, provavelmente você já foi vítima de gaslighting por parte do seu companheiro.

A origem do termo remonta ao ano de 1938, com o lançamento da peça de teatro "Gas Light" (À meia-luz), de Patrick Hamilton, dramaturgo inglês. No roteiro, uma das formas de manipulação do marido era apagar e acender as luzes, para que a esposa pensasse que estava enlouquecendo – caso ela fosse internada como doente mental, o homem herdaria toda sua fortuna.

A peça fez tanto sucesso que foi adaptada para o cinema em 1944, com o filme de mesmo nome protagonizado por Ingrid Bergman. A partir de 1960, o termo gaslighting foi bastante difundido na psicologia, para designar o abuso psicológico sofrido pela mulher quando o homem distorce ou omite informações com o objetivo de fazê-la duvidar da sua memória e até de sua sanidade mental.

Sessenta anos depois, muitas mulheres ainda desconhecem este tipo de violência, mesmo com o aumento do debate sobre as diferentes formas de violência contra a mulher e suas cabíveis punições.

Gasligthing nada mais é, portanto, que um tipo extremo de abuso psicológico, previsto no inciso II do artigo 7º da Lei Maria da Penha:

 

"II - a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, violação de sua intimidade, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação; (Redação dada pela Lei nº 13.772, de 2018)"

 

Por ocorrer de forma gradual, este tipo de violência psicológica nem sempre é percebido pela mulher. Ao longo do tempo, o padrão abusivo aumenta e a vítima, que não tem consciência de que está sofrendo violência psicológica, começa a mudar seu comportamento para não desagradar o parceiro.

O abusador afasta a vítima da família, de amigos, a humilha e banaliza seus sentimentos, o que faz com que ela fique ainda mais desconfiada da sua capacidade de julgamento. É muito comum, como em outros tipos de violência contra a mulher, que o abusador alterne comportamentos – ataca e depois pede desculpas. E essa mulher fica cada vez mais presa a uma relação extremamente tóxica.

Para ajudar as mulheres a perceberem que estão em uma relação abusiva, o site “Livre de Abuso” aponta os sinais que possibilitam saber se estão sendo vítimas de gaslighting:

 

1- Você duvida de si mesma constantemente.

2- Você se pergunta: “Eu sou sensível demais?”  Várias vezes ao dia.

3- Você constantemente se sente confusa ou até mesmo meio maluca.

4- Você está sempre pedindo desculpas ao seu parceiro.

5- Você não entende por que, com tantas coisas aparentemente boas na sua vida, você não está mais feliz.

6- Você frequentemente cria desculpas para justificar o comportamento do seu parceiro para seus amigos e sua família (ou até para si mesma).

 

O gaslighting pode ter consequências seríssimas para a mulher, gerando problemas como ansiedade, depressão, síndrome do pânico e isolamento. Por duvidar de sua própria sanidade, a vítima passa a confiar em tudo que o abusador diz, o que lhe dá mais poder ainda.

Muitas vezes, este homem é amigável com sua família, gentil com os amigos, passando uma imagem de "bom moço".  E, uma vez que o gaslighting é uma forma de violência sutil, pois não deixa marcas físicas, a mulher geralmente é desacreditada.

Assim, é fundamental que a mulher se informe mais sobre o assunto e tente perceber os sinais que indicam que ela está sendo vítima de gaslighting em seu relacionamento amoroso.

É preciso que esta mulher deixe de lado o medo de não acreditarem em suas queixas, e se empodere para ter forças para denunciar seu agressor e pôr fim à tortura psicológica desta relação abusiva.

 

Anderson Albuquerque – Direito da Mulher – Crime de Gaslighting